O Perigo de Pecar Intencionalmente
O escritor interrompe
suas exortações para alertar sobre o perigo da apostasia mais uma vez. Na
segunda metade do capítulo 10, ele adverte contra a apostasia (vs. 26-31), mas
também encoraja os que têm fé a prosseguir (vs. 32-39). No décimo primeiro
capítulo, continua a digressão dando exemplos daqueles que viveram pela fé nos
tempos do Velho Testamento, antes de retomar suas exortações no capítulo 12:1.
Vs. 26-27 – Ele diz: “Porque, se pecarmos voluntariamente,
depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais
sacrifício pelos pecados”. O pecado intencional ao qual está se referindo
aqui é a apostasia – o pecado predominante em toda epístola. Como já
mencionado, a apostasia em que os hebreus estavam em perigo era a renúncia da
fé Cristã e o retorno ao judaísmo. É algo que apenas um falso professante que
nunca foi salvo faria.
Este versículo (v. 26)
não está se referindo a um Cristão que retrocede e cai em pecado e assim perde
sua salvação, como comumente pensado, porque os Cristãos não podem perder sua
salvação (Jo 10:27-28, etc.) A pessoa em vista aqui é alguém que recebeu “o conhecimento da verdade” e, assim,
foi iluminada por ela. Mas note: não diz que ela creu. Receber a verdade e crer
na verdade são duas coisas diferentes. Alguns pensam que a palavra “(nós)” neste versículo indica que ele
está falando de Cristãos, e consequentemente o escritor inclui a si mesmo. No
entanto, como mencionado anteriormente, o uso do “nós” na epístola geralmente está se referindo aos compatriotas do
escritor que eram judeus, como é o caso aqui.
Nem este versículo fala
de um pecador que rejeita o evangelho. Rejeitar o evangelho certamente pode ser
classificado como um pecado, mas não é o pecado em vista aqui. Essa pessoa é
muito mais responsável do que o pecador que rejeita o evangelho. Ele adotou o
evangelho externamente e professou ter acreditado, e depois jogou tudo fora. No
capítulo 6, o escritor deixa claro que não há recuperação desse pecado
intencional de apostasia. Onde poderia ser encontrado um sacrifício pelos
pecados de um apóstata? Deus deixou de lado os sacrifícios judaicos e o
apóstata, por si próprio, deu suas costas ao sacrifício de Cristo! Portanto, “já não resta mais sacrifício pelos pecados”
de tal pessoa. Não há lugar para onde ele possa ir e nenhum sacrifício para o
qual ele possa se voltar. Ele está condenado. J. N. Darby disse: “Seu
sacrifício [o de Cristo] oferecido uma vez foi único. Se alguém que, após ter professado
conhecer o seu valor, o abandonasse, não haveria outro sacrifício para o qual
pudesse recorrer, nem jamais poderia ser repetido. Não restou mais sacrifício
pelos pecados” (Synopsis of the Books of
the Bible, em Hebreus 10). Tudo o que foi deixado para um apóstata é “uma certa expectação horrível de juízo”
(v. 27). Tal pessoa se torna um “adversário”
da verdade e, consequentemente, será devorado pelo irado juízo de Deus.
Vs. 28-31 – Para
mostrar a seriedade da apostasia, o escritor compara esse pecado intencional
com os pecados cometidos “à mão
levantada [atrevidamente – ARA]” na velha administração e mostra que é
algo muito “pior”. Sob a Lei, a pessoa
que presunçosamente desconsiderasse uma simples injunção era executada “pela palavra de duas ou três testemunhas”.
Um caso em questão foi a infração do homem que reuniu gravetos no dia de sábado
(Nm 15:30-36). Ele foi apedrejado até a morte, porque fez isso presunçosamente!
Não era um pecado de ignorância pelo qual uma oferta pelo pecado poderia ser
aplicada e a pessoa poderia ser governamentalmente perdoada (Lv 4:2; Nm 15:27-29;
Hb 9:7). O escritor então diz: “De
quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o
Filho de Deus, e tiver por profano [comum
– JND] o sangue do testamento, com que
foi santificado, e fizer agravo [insultar
– JND] ao Espírito da graça?” (v.
29) Se não havia remédio para um pecado intencional sob a Lei, quanto mais no
caso de um apóstata que peca “atrevidamente”
(intencionalmente) contra a graça de Deus!
Para enfatizar isso, o
escritor menciona três coisas terríveis neste versículo que um apóstata faz
quando renuncia à fé Cristã e retorna ao judaísmo. Primeiramente, ele pisa “o
Filho de Deus!” Assim, não rejeita moderadamente a Cristo –ele decididamente
O rejeita da maneira mais depreciativa. Tal maneira de rejeição é uma afronta à
grandeza de Sua Pessoa. Em segundo lugar,
considera “profano o sangue da aliança
com que foi santificado”. Ao tomar o terreno Cristão, um crente que
meramente professa é exteriormente santificado no que os estudiosos da Bíblia
chamam de “santificação relativa”. (Veja Rm 11:16; 1 Co 7:14 e 2 Tm 2:21). Ser
separado desta maneira não significa que uma pessoa é salva, mas que está em
uma posição favorecida por meio de sua identificação com a companhia Cristã. O “sangue do novo concerto” foi derramado
na cruz (Mt 26:28). A obra de Cristo estabeleceu o fundamento para a elaboração
do novo concerto com Israel num dia vindouro. Nesse meio tempo, Seu sangue
santifica todos os que fazem uma profissão de fé n’Ele, desse modo exterior.
Renunciar à profissão que se fez é tratar “o
sangue” de Cristo como “coisa
profana”. Isto é uma desconsideração chocante daquilo que é extremamente
precioso aos olhos de Deus e aos olhos de todos os que foram redimidos por ele!
(1 Pe 1:18) Em terceiro lugar, o
apóstata insultou “o Espírito da graça”
– a Pessoa divina que veio de Deus para transmitir muitas verdades maravilhosas
para nós e para nos conceder muitas bênçãos também maravilhosas.
É desnecessário dizer
que ser culpado dessas coisas é muito mais sério do que ser culpado de recolher
gravetos no dia de sábado! Se um julgamento severo foi executado contra um
infrator sob a Lei por uma ofensa tão simples, certamente será imposto contra
uma pessoa que faz essas coisas terríveis. Assim, o julgamento será
proporcional à gravidade do pecado.
Vs. 30-31 – Enquanto
naturalmente nos afligimos com tal incredulidade descarada, devemos abster-nos
de julgar todos aqueles que apostatam. O apóstata deve ser deixado para ser
tratado por Deus. Assim, o escritor nos dá uma palavra de advertência: “Minha é a vingança, Eu darei a recompensa,
diz o Senhor”. E novamente: “O Senhor
julgará o Seu povo”. Sua palavra final de advertência é: “Horrenda coisa é cair nas mãos do Deus
vivo”. Esta declaração solene foi calculada para falar à consciência de
qualquer um que estivesse meramente professando crer, que estivesse pensando em
se retirar da companhia Cristã e retornar ao judaísmo.