Cap. 10:19-22 – Visto que todos os
crentes são sacerdotes, somos exortados: “Tendo,
pois, irmãos, ousadia para entrar no Santuário [Santo dos santos – ARA], pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo
caminho que Ele nos consagrou, pelo véu, isto é, pela Sua
carne, e tendo um Grande Sacerdote sobre a casa de Deus, cheguemo-nos
... ” Esta primeira exortação
considera os crentes no Senhor Jesus como uma companhia de sacerdotes que têm
privilégios e liberdades que os sacerdotes do Velho Testamento não tinham.
Somos, portanto, encorajados a nos valer dessa tremenda liberdade de acesso à
presença de Deus e a “entrarmos no santíssimo
lugar” (AIBB) com “ousadia” no
espírito de oração e louvor. Este grande privilégio é nosso devido à eficácia
do “sangue de Jesus” – um sinal de
Sua obra consumada.
O Senhor entrou no
santuário celestial “pelo” (TB) poder
(virtude) de Seu sangue (cap. 9:12), e agora podemos entrar “pelo” poder (virtude) de Seu sangue
(cap. 10:19). Ele entrou fisicamente; nós entramos em espírito. Uma vez que não
é possível para nós, na condição atual de nossos corpos, subir ao céu
literalmente, é óbvio que o escritor quer dizer que isto deve ser feito em
espírito, pois a verdadeira adoração Cristã é em “espírito” e de acordo com a nova revelação da “verdade” (Jo 4:23). Na velha administração levítica, as pessoas
certamente oravam e adoravam a Deus, mas não tinham o entendimento quanto à
aceitação (uma bênção Cristã) e, portanto, a liberdade que a obra consumada de
Cristo dá aos crentes. O resultado foi que foram mantidos a uma distância
consciente de Deus. Isso é exprimido no sistema do tabernáculo pelo fato de o
povo adorar do lado de fora do santuário (Lc 1:10).
V. 20 – O escritor
chama esse meio de aproximação à presença de Deus de o “novo e vivo caminho”. É “novo”
porque não é uma alteração ou um adendo à velha ordem judaica, mas uma coisa
inteiramente nova. A Cristandade, historicamente e atualmente, não entendeu
isso. Os serviços da igreja em toda parte são compostos de uma mistura de
adoração Cristã e a antiga ordem judaica de adoração. O resultado é um híbrido
dessas duas ordens contrastantes, que não são nem verdadeiramente judaicas, nem
verdadeiramente Cristãs. Essa ordem de aparência judaico-Cristã não é nada
daquilo que Deus pretende para os redimidos pelo sangue de Cristo. De fato, Ele
critica a ideia de misturar as duas ordens (Hb 13:10).
Essa nova ordem de
adoração também é chamada de “viva”,
porque a pessoa precisa ter uma nova vida (por meio do novo nascimento) para
participar dela. Na ordem judaica do Velho Testamento, uma pessoa não precisava
ter vida divina para desfrutar do que via e ouvia e da grandeza da adoração no
templo; podia participar sem ser nascido de novo!
Este novo e vivo
caminho Ele “nos consagrou [dedicou – JND], pelo véu, isto é, pela Sua carne”. Isto simplesmente significa que
para podermos nos aproximar da presença de Deus como adoradores purificados, o
véu (uma figura do corpo de Cristo) tinha que ser rasgado. Isto é, Cristo teve
que morrer. Assim, não foi a Sua vida perfeita como Homem que abriu o caminho
para nós à presença de Deus – foi a Sua morte. Além disso, esse privilégio que
temos custou a Deus a entrega de Seu Filho. Saber isso deveria nos levar a
tratá-lo com grande apreço. Nossa liberdade de acesso não é tão somente uma
bênção, mas um privilégio baseado em
nossas bênçãos.
V. 21 – Para nos
encorajar a entrar na presença de Deus, o escritor nos lembra de que no Senhor
Jesus Cristo temos “um Grande Sacerdote
sobre a casa de Deus”. Como um “Sumo”
Sacerdote, Ele está lá para nos ajudar, intercedendo por nós, mas como um “Grande” Sacerdote, Ele preside a casa
de Deus e assim tem a responsabilidade de tudo o que acontece na casa. Isso
corresponde ao papel que Aarão teve na antiga ordem levítica ao levar “a iniquidade das coisas santas” em “todas as ofertas” que os filhos de
Israel trouxeram a Deus (Êx 28:36-38). Ele usava “uma mitra [turbante]” que tinha uma placa de ouro com as
palavras inscritas: “SANTIDADE AO SENHOR”
(ARF). Se algum dos filhos de Israel trouxesse inadvertidamente algo em
suas ofertas que não estivesse de acordo com a ordem devida, Aarão suportaria a
iniquidade disso, mas não o ofertante. Isso foi dado para encorajar as pessoas
a virem com suas ofertas. Da mesma forma, no novo e vivo caminho, temos um
Grande Sacerdote que conduz todas as nossas orações e louvores, e os apresenta
a Deus perfeitamente (Hb 13:15; 1 Pe 2:5). E, se oferecermos algo em nossa
adoração que não esteja de acordo com a verdade, Ele cuidará disso e removerá o
que não é aceitável. (Compare com Levítico 1:15-16.) Ter um Grande Sacerdote
sobre a casa de Deus servindo dessa maneira deveria nos encorajar a responder
mais livremente à exortação “cheguemo-nos”
para oferecer nosso louvor e adoração. Podemos fazer isso com confiança,
sabendo que temos essa segurança contra falhas.
V. 22 – O escritor
menciona então quatro coisas que capacitam o crente a se aproximar de Deus como
sacerdote; duas têm a ver com a nossa posição
perante Deus e duas têm a ver com o nosso estado.
Quanto à nossa posição,
temos nosso “corpo lavado com água pura”
(TB). Como já mencionado, essa é uma figura retirada da lavagem dos
sacerdotes em sua consagração (Êx 29:4). Ela tipifica a limpeza que temos como
resultado do novo nascimento (Jo 3:5, 13:10, 15:3). O Espírito de Deus aplicou
a água da Palavra de Deus em nossas almas e assim comunicou uma nova vida para
nós. O resultado é que estamos “limpos
todo o tempo” porque essa nova vida é santa (Jo 13:10). Também temos nossos
“corações aspergidos” (KJV). Esta é
outra figura retirada da aspersão dos sacerdotes com sangue na sua consagração
(Êx 29:20-21). Ela tipifica a limpeza judicial que temos por meio da fé na obra
consumada de Cristo – da qual Seu sangue é um sinal. Isso resulta no crente
tendo uma consciência purificada (Hb 9:14, 10:2). Assim, o crente no Senhor
Jesus Cristo tem uma dupla limpeza, significada pelos dois agentes divinos de
limpeza que fluíram do lado do Senhor na cruz – o sangue e a água (Jo
19:34).
Em João 19:34, o “sangue” é mencionado antes da “água”, porque está registrando o fato histórico;
enquanto em 1 João 5:6-8, a água é colocada antes do sangue, porque se refere à
ordem de sua aplicação na vida dos
homens. Um é o lado de Deus e o outro é o do homem. Perante os olhos de Deus, o
sangue deve vir primeiro. É requerido para que os homens sejam abençoados. Todas
as obras de Deus pela Sua Palavra e Seu Espírito no novo nascimento dependem de
Cristo e têm em vista Cristo entrando no mundo e pagando o preço pelo pecado – do
qual fala o sangue. J. A. Trench disse: “Um dos soldados com uma lança perfurou
o Seu lado, e imediatamente saiu ‘sangue
e água’ (Jo 19:34). Esta é a ordem histórica, e nela vem o sangue em
primeiro lugar, como base de tudo para a glória de Deus e nossa bênção. Na
ordem de aplicação para nós, como diz João em sua epístola (1 Jo 5:6), a água
vem primeiro: ‘Este é aqu’Ele que veio por
água e por sangue ... ’ e é o
Espírito que dá testemunho” (Scripture
Truth, vol. 1, pág. 22).
O escritor menciona
então duas coisas práticas que são necessárias para o crente atuar na presença
de Deus como sacerdote. Ele fala da necessidade de ter “um verdadeiro coração”, que é um coração que julgou a si mesmo (1
Co 11:28, 31). Por outro lado, um coração cheio de malícia que cobre seu real
estado não é um coração verdadeiro. Assim, precisamos ter um coração “verdadeiro” quando nos aproximamos de
Deus em adoração (Hb 10:22) e um coração “honesto”
quando lemos Sua Palavra (Lc 8:15). O escritor também menciona ter “inteira certeza da fé”. Isso não se
refere à certeza da salvação, mas à confiança que temos em nos aproximar de
Deus em fé porque temos uma dupla limpeza e nos julgamos a nós mesmos.
Assim, as duas
primeiras coisas (“corpos lavados” e
“corações aspergidos”) fazem de nós sacerdotes e as duas segundas (“um verdadeiro coração” e “inteira certeza de fé”) nos tornam sacerdotais. Os dois primeiros estão relacionados
com a nossa posição diante de Deus e os dois últimos têm a ver com o nosso
estado de alma. Os dois últimos podem explicar por que há ocasiões em que
apenas alguns irmãos exercitam seu sacerdócio audivelmente em uma reunião – alguns
dos sacerdotes presentes podem não estar em estado sacerdotal para fazê-lo. A
resposta não é estabelecer uma casta de homens para fazer a oração pública, etc.,
como é feito na Cristandade, mas julgar a nós mesmos para que o Espírito de
Deus seja livre para nos conduzir nas reuniões em oração pública e louvor.