Vs. 1-10 – Em resumo do
capítulo anterior (9), o escritor mostra que, com a vinda de Cristo (Seu primeiro
advento), os sacrifícios do sistema levítico foram suplantados por Seu único
grande sacrifício. Por isso, a “sombra dos
bens futuros” deu lugar à verdadeira essência que ela representa na obra
consumada de Cristo. Nos tempos do Velho Testamento, a luz de Deus estava
brilhando sobre Cristo, e todas as formas e cerimônias, incluindo os sábados
semanais, eram apenas sombras projetadas por Ele. Visto que Ele mesmo veio e
assim cumpriu esses tipos, essas sombras deram lugar à verdadeira substância. Assim
sendo, o sistema levítico, com suas formas e rituais, serviu ao propósito de
apontar adiante para Cristo e agora esse sistema não é mais necessário.
O sistema do tabernáculo
era uma “alegoria” (cap. 9:9) e uma “sombra” (cap. 10:1) das coisas
espirituais nos céus, mas não era “a
imagem exata” daquelas coisas. Ao afirmar isso, o autor deixa claro que não
devemos pensar que cada vaso e peça do mobiliário no tabernáculo necessariamente
tenha uma contrapartida nos céus. Tais ideias levam a interpretações místicas.
O ponto principal nos
versículos iniciais do capítulo 10 é que os sacrifícios oferecidos naquele
sistema terreno não podiam realmente “tirar
os pecados” de diante de Deus, nem poderiam “aperfeiçoar os que a eles se chegam” quanto à sua consciência. De
fato, esses sacrifícios não foram dados para esse propósito. Como mencionado,
foram dados para apontar para a época em que Cristo viria como o definitivo “sacrifício pelo pecado” (Hb 10:12; Is
53:10; Rm 8:3; 2 Co 5:21).
Em contraste com a
incapacidade daqueles muitos sacrifícios do Velho Testamento que não podiam
aperfeiçoar um crente, o escritor diz que os adoradores no Cristianismo são “purificados uma vez” pela simples fé
na obra consumada de Cristo. Ao recebê-Lo como Salvador, o crente é purificado
para sempre! Isso nunca precisa ser repetido! O resultado prático desta grande
bênção é que o crente não tem “mais
consciência dos pecados”. Como mencionado em nossas observações sobre o
capítulo 9:13-14, aquele que tem uma consciência de pecados vive no pavor de
que Deus um dia o leve a julgamento por seus pecados. Não ter mais consciência
dos pecados é ter esse temor do julgamento removido para sempre, entendendo que
a questão de nossos pecados foi resolvida em justiça por Deus no sacrifício de
Cristo, e que nunca entraremos em
julgamento. Como mencionado no capítulo 9, ter uma consciência purificada é uma
bênção que os Cristãos têm que os santos do Velho Testamento sob o sistema
levítico não tinham.
O escritor raciocina
que, se aqueles sacrifícios oferecidos no Dia da Expiação tirassem os pecados
de diante de Deus, teriam “deixado de se
oferecer” (v. 2). Mas desde que eram oferecidos “a cada ano”, é clara a evidência de que não conseguiam tirar os
pecados. O ritual do Velho Testamento no Dia da Expiação cobria seus pecados (o significado de “expiar” na língua hebraica) em virtude da paciência de Deus (Rm
3:25), mas esse ritual não podia tirar
os pecados. O sangue de “touros”,
que fazia uma expiação anual pelos sacerdotes naquele sistema (Lv 16:6-14) e
sangue de “bodes”, que fazia
expiação anual pelo resto dos filhos de Israel (Lv 16:15-22) simplesmente não
poderiam tirar pecados. Tal só poderia ser realizado por meio da morte de
Cristo (1 Jo 3:5). F. B. Hole disse: “Os sacrifícios do Velho Testamento eram
como uma nota promissória. Eles tinham valor, mas serviam para aquilo que apontavam.
Eram apenas um pedaço de papel; o sacrifício de Cristo é como o ouro fino. Em Levítico,
o valor relativo deles é apontado. Em Hebreus, descobrimos que seu valor é
apenas relativo e não intrínseco. Eles nunca podiam tirar pecados. Por isso,
neles Deus não teve prazer, e a vinda de Cristo foi uma necessidade” (Hebrews, pág. 42).
Os judeus, no entanto,
recusaram-se a aceitar que Cristo era o grande cumprimento da sombra. Eles se
apegavam às formas externas e rituais do judaísmo, embora a própria essência de
que essas coisas falavam tivesse sido cumprida. Foi uma ignorância voluntária.
Preferir a Lei a Cristo é como preferir um retrato de alguém ao invés da pessoa
representada no retrato! Em relação aos hebreus que professamente assumiram a
posição Cristã, é difícil entender como alguém desejaria deixar a realidade em
Cristo e voltar às cópias. Ou, porque alguém iria querer deixar um Sumo
Sacerdote perfeito servindo no santuário celestial e retornar a um sacerdote falho
que servia no santuário terrestre. No entanto, isso foi evidentemente uma
tentação para alguns dos hebreus.
Vs. 5-7 – Visto que o
sangue de touros e bodes não podia satisfazer as exigências da justiça divina
em relação aos pecados, foi a vontade de Deus que um sacrifício aceitável fosse
feito para realizar isso em algum momento da história do homem. O escritor cita
o Salmo 40 para mostrar que era o conselho de Deus antes da fundação da Terra
que Cristo viesse ao mundo como o divino Emissário do pecado, e por Seu único
sacrifício, resolvesse a questão do pecado para a glória de Deus e para a
bênção do homem. Ele diz: “Pelo que,
entrando no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste, mas corpo Me
preparaste”. Isto significa que o Senhor veio com um entendimento completo
de que as reivindicações da justiça divina não poderiam ser satisfeitas por
aquelas ofertas levíticas, e para ser o Emissário do pecado do homem, Ele teria
que Se tornar um homem. Assim, um “corpo”
humano foi preparado para Ele por Deus, o qual Ele tomou em Sua encarnação (Lc
1:35). E “pela oferta do corpo de Jesus
Cristo”, foi feito um sacrifício que tirou o pecado de “uma vez para sempre” (v. 10 – TB).
“Corpo
Me preparaste” é uma citação do Salmo 40:6 na versão
Septuaginta (uma tradução grega das Escrituras do Velho Testamento do terceiro
século a.C.), como também as outras citações do Velho Testamento na epístola.
Podemos nos perguntar por que o Espírito de Deus levaria o escritor a citá-lo
como tal quando sua tradução nas Escrituras Hebraicas é: “os Meus ouvidos abriste”. No entanto, ao escrever as
Escrituras do Novo Testamento, é prerrogativa do Espírito alterar isso que Ele
mesmo originalmente inspirou no Velho Testamento, pois Ele é o Autor divino. Da
mesma forma, se fôssemos observar uma das pinturas de Rembrandt, e ao
contemplá-la, pensarmos que ficaria melhor se acrescentássemos alguns toques de
tinta aqui e ali – tal coisa seria totalmente inaceitável. No entanto, se o
próprio Rembrandt entrasse e olhasse para o seu trabalho, e decidisse adicionar
um toque de tinta à sua pintura, seria aceitável porque ele é o artista
original. Da mesma forma, o divino Autor das Escrituras tem todo o direito de
apresentar um determinado texto de maneira diferente no Novo Testamento. Eles
não se contradizem, porque ter “ouvidos”
é ter um “corpo”. O Salmo 40:6
enfatiza a obediência de Cristo como um Servo, portanto, é apropriadamente “ouvido”. Hebreus 10:5 enfatiza Cristo entregando-Se
a Si mesmo como um sacrifício, e aí é dito “corpo”.
A declaração: “Não Te deleitaste em holocaustos e
sacrifícios pelos pecados” (v. 6 – TB) seria particularmente difícil de
aceitar para os judeus abrigados no judaísmo. Eles sabiam que aquelas ofertas
foram dadas por Deus e que Ele ficou satisfeito quando foram oferecidas. Elas
eram “de cheiro suave ao Senhor” (Lv
1:9, 13, 17, etc.) Qualquer ideia de que Deus não estava satisfeito com elas
seria uma coisa difícil para um judeu aceitar. No entanto, sendo que esta é uma
citação de suas próprias Escrituras (Sl 40:6), os judeus são forçados a admitir
que esta não era uma ideia estranha que o escritor da epístola inventou. Suas
próprias Escrituras afirmam que chegará um tempo em que essas ofertas e
sacrifícios não serão mais requeridos (“não
requeres – ARA”). Isso só pode
ser explicado pela vinda do Messias e pela oferta de Seu grande sacrifício,
como atestam muitas passagens da Escritura.
V. 7 – O Salmo 40 é citado
para mostrar que Cristo é a grandiosa realização de todos esses sacrifícios.
Ele descreve Sua devoção ao cumprimento da vontade de Deus: “Eis aqui venho (no princípio do livro está
escrito de Mim), para fazer, ó Deus, a Tua vontade”. O “livro” não é a Bíblia, mas uma referência figurativa ao conselho
de Deus sobre a vinda de Cristo ao mundo para fazer expiação. Ao citar o Salmo,
o Espírito de Deus propositalmente deixa de fora as palavras: “Deleito-Me”. Isso porque o Salmo 40,
em sua interpretação primária, tem a ver com a morte de Cristo como o supremo
holocausto. Como o holocausto, fazer a vontade de Deus era algo em que o Senhor
Se deleitava – mesmo que isso significasse ir para a morte. Contudo, o assunto
em Hebreus 9-10 é o sacrifício de Cristo como a oferta pelo pecado na qual Ele
foi “feito pecado” (2 Co 5:21). Como
oferta definitiva de pecado, sofreu indizíveis agonias sob o julgamento de Deus
quando levou nossos pecados em Seu próprio corpo no madeiro. Aqueles
sofrimentos expiatórios não eram deleites para Ele, mas permaneceu na cruz em
obediência à vontade de Deus a fim de aniquilar o pecado. Assim, a frase “deleito-Me” é abandonada quando o
salmo é aplicado à oferta pelo pecado.
Nos versículos 8-9, o
Salmo 40 é citado uma segunda vez, mas por uma razão diferente. Nesta ocasião,
está em conexão com a remoção de todo o sistema levítico. O escritor menciona
as quatro ofertas principais em Levítico 1-6 como a soma do sistema levítico, e
depois fala da vinda de Cristo ao mundo para tirá-lo. Isso mostra que o
sacrifício de Cristo foi a consumação e o encerramento da administração
levítica. Assim, o Salmo 40 é citado por duas razões: em conexão com a vinda de
Cristo ao mundo para tirar os pecados
de uma vez por todas (vs. 4-7) e também em conexão com Sua vinda para tirar “a primeira” ordem de aproximação a Deus (o sistema levítico). Este
último ponto foi necessário para “estabelecer
a segunda” ordem sob o novo concerto. Simplificando, o segundo não pôde ser
estabelecido enquanto o primeiro ainda estava funcionando.
V. 10 – O grande
resultado da vontade de Deus sendo feita é que fomos “santificados pela oferta do corpo de Jesus Cristo feita uma vez para
sempre” (TB). Em virtude desta grande obra de Cristo, Deus separou (que
significa santificação) crentes para bênção eterna.