O escritor prossegue
trazendo uma série de provas interligadas ao longo do capítulo que mostram que
o sacerdócio de Melquisedeque é superior ao de Aarão e, ao mesmo tempo,
correlaciona o sacerdócio de Melquisedeque com o de Cristo.
O SACERDÓCIO DE MELQUISEDEQUE ENVOLVEU UM OFÍCIO DUPLO DE REI E DE SACERDOTE
(vs.
1-3)
Como já mencionado, Melquisedeque tinha
um sacerdócio único envolvendo dois ofícios: ele era tanto um rei quanto um
sacerdote. Ele segurava um cetro e um incensário. Nenhum sacerdote Aarônico
poderia reivindicar isso. Em Israel, esses ofícios eram sempre separados um do
outro; não havia um homem entre eles que fosse suficientemente grande para ter
os dois. Em uma ocasião, um rei (Uzias) se atreveu a realizar a obra de um
sacerdote, e levou um incensário ao templo para oferecer incenso – e
imediatamente Deus o feriu com lepra! (2 Cr 26:16-21) Para ele, assumir tal
papel era presunção. No entanto, Melquisedeque ocupou os dois cargos e isso com
a aprovação de Deus! Isso mostra que ele era pessoalmente maior que os
sacerdotes aarônicos, e tinha um sacerdócio que era de uma ordem superior à
deles.
O SACERDÓCIO DE AARÃO PAGOU DÍZIMOS A MELQUISEDEQUE POR MEIO DE ABRAÃO (vs. 4-5)
O escritor então mostra que a dignidade
pessoal de Melquisedeque era tal que o sacerdócio aarônico pagou dízimos a ele
por meio de Abraão. Ele diz: “Considerai,
pois, quão grande era este, a quem até o patriarca Abraão deu os dízimos dos
despojos”. Nos versículos 9-10, ele explica como o sacerdócio levítico fez
isso. Ele diz: “E, para assim dizer, por
meio de Abraão, até Levi, que recebe dízimos, pagou dízimos. Porque ainda ele
estava nos lombos de seu pai, quando Melquisedeque lhe saiu ao encontro”. Este
fato mostra novamente que os sacerdotes aarônicos eram inferiores e
subservientes a Melquisedeque.
O SACERDÓCIO DE AARÃO FOI ABENÇOADO POR MELQUISEDEQUE EM ABRAÃO (vs. 6-10)
O escritor traz um outro ponto: “Mas aquele [Melquisedeque] cuja genealogia não é contada entre eles [os
sacerdotes Aarônicos] tomou dízimos de
Abraão e abençoou o [Abraão] que
tinha as promessas. Ora, sem contradição alguma, o menor [inferior – ARA] é abençoado pelo maior [superior
– ARA]”. O fato de Melquisedeque ter
abençoado a Abraão mostra que estava em uma posição acima de Abraão e,
portanto, era maior do que Abraão. Visto que “os filhos de Levi” estavam, por assim dizer, nos lombos de Abraão
naquela época, também foram abençoados pelo maior. Isso novamente mostra que o
sacerdócio de Melquisedeque era maior que o de Aarão.
O SACERDÓCIO DE
AARÃO CARECIA DE PERFEIÇÃO (v. 11)
O escritor então aponta para o fato de
que a Escritura fala de outro Sacerdote surgindo com um novo sacerdócio “segundo a ordem de Melquisedeque” (Sl
110:4). Ao se referir a este salmo, sua ênfase está na palavra “ordem”. Isso apontou para uma época em
que uma nova ordem de sacerdócio seria estabelecida. Seu raciocínio é que, se o
sacerdócio aarônico fosse perfeito, não haveria necessidade de vir outra ordem
de sacerdócio. Ele diz: “De sorte que,
se a perfeição fosse pelo sacerdócio levítico (porque sob ele o povo recebeu a
lei), que necessidade havia logo de que outro sacerdote se levantasse, segundo
a ordem de Melquisedeque, e não fosse chamado segundo a ordem de Aarão?”
Esse fato prova que o sacerdócio levítico carecia de perfeição e integridade e
mostra que esse sistema era inerentemente imperfeito. O sacerdócio levítico carecia
de perfeição no que podia fazer. Não podia trazer esses sacerdotes para a
presença imediata de Deus – dentro do “Santuário
[Santo dos Santos – JND]” (Hb 9:7-8). Nem os sacrifícios que
ofereciam tornavam “perfeitos os ofertantes”
quanto à sua consciência, quanto a tirar judicialmente os seus pecados (Hb
10:1-4). Assim, o Salmo 110 indica que Deus tinha em mente uma mudança de
sacerdócio. Ele traria outro sacerdócio que realizaria o que o sacerdócio
aarônico não podia fazer.
O SACERDÓCIO DE AARÃO ERA TRANSITÓRIO, CONSIDERANDO QUE A ORDEM DE MELQUISEDEQUE
É ETERNA (vs. 12-19, 23-24)
A fraqueza do sacerdócio Aarônico exigia
uma mudança, e isso significava que haveria “também mudança da lei” que o governava (v. 12). O escritor menciona
isso porque os judeus tiveram dificuldade em aceitar que Cristo poderia ser um
sacerdote porque Ele não era da tribo de Levi. A Lei afirmava que os sacerdotes
daquela ordem tinham de ser da linhagem familiar de Aarão. O escritor reconhece
isso e diz: “Porque aqu’Ele (Cristo) de Quem essas coisas se dizem pertence a
outra tribo, da qual ninguém serviu ao altar, visto ser manifesto que nosso
Senhor procedeu de Judá, e concernente a essa tribo nunca Moisés falou de
sacerdócio” (vs. 13-14). Ele explica então que, como o sacerdócio de Cristo
é “à semelhança de Melquisedeque” (v.
15), que não assumiu o cargo por meio da genealogia, Cristo também não entrou
em Seu ofício por linhagem familiar. Este novo sacerdócio não é governado por
essa antiga exigência legal.
Ele então declara que o
novo sacerdócio – que não é “segundo a
lei do mandamento carnal” que exige que um sacerdote seja da família de Aarão
– mas é “segundo a virtude da vida
incorruptível [indissolúvel –
ARA]” (v. 16). Consequentemente, a
qualificação para esse novo ofício no sacerdócio não está na correta genealogia
da pessoa, mas no fato de ter uma vida sem fim. Ele deve ser eterno! Para
apoiar isso, o escritor aponta novamente para o Salmo 110; desta vez com ênfase
na palavra “eternamente”. Ele diz: “Porque d’Ele assim se testifica: Tu és Sacerdote
eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (v. 17). Quem poderia
preencher este requisito senão Cristo? Os sacerdotes do Velho Testamento
certamente não puderam “porque, pela
morte, foram impedidos de permanecer” (v. 23). Portanto, a ordem de Melquisedeque
de sacerdócio não é transmitida pelos antepassados, nem é transferida para
descendentes, e não será interrompida pela morte. Uma vez que é sem linhagem,
intransferível e eterna, a permanência desse sacerdócio está assegurada (v.
24).
Assim, ao introduzir o
sacerdócio de Cristo foi necessário ser “ab-rogado
[colocado de lado – JND] o mandamento prévio por causa da sua
fraqueza e inutilidade (pois a lei
nenhuma coisa aperfeiçoou)” (vs. 18-19). O mandamento de Moisés quanto ao
sacerdócio, portanto, foi posto de lado, mas a importância moral dos Dez
Mandamentos não foi, pois ainda têm sua aplicação moral aos santos (Rm 13:8-10)
e aos pecadores (1 Tm 1:9-10). Como mencionado, havia “fraqueza” com aquela ordem aarônica porque o sacerdote, estando
sujeito à morte, não podia continuar naquele ofício (v. 23). Também era de
completa “inutilidade” porque não
poderia introduzir na presença de Deus, com uma consciência purificada, aquele que
se achegava. Em contraste, ele diz: “desta
sorte é introduzida uma melhor esperança, pela qual chegamos a Deus” (v.
19). Esta é uma referência ao novo e vivo caminho pelo qual nos aproximamos de
Deus no Cristianismo (cap. 10:19-22). O Cristianismo é visto aqui como uma “esperança” porque, embora tenhamos
nossas bênçãos agora (Ef 1:3), ainda não chegamos ao nosso destino celestial em
estado glorificado. Tal destino ainda está à nossa frente como uma esperança
(uma certeza adiada) que será realizada quando o Senhor vier no Arrebatamento.
O SACERDÓCIO DE CRISTO SEGUNDO A ORDEM DE MELQUISEDEQUE É POR UM
JURAMENTO (vs. 20-23)
O escritor segue adiante para outro
ponto – Deus estabeleceu o sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque
com a prestação de “um juramento”.
Isto não foi feito em conexão com o sacerdócio Aarônico. Deus não jurou a Aarão
que seu sacerdócio continuaria para sempre. Ele diz: “E, visto como não é sem prestar juramento [que Ele (Cristo) foi feito Sacerdote
– KJV] (porque certamente aqueles (aarônicos), sem (prestar) juramento, foram feitos sacerdotes, mas Este (Cristo) com juramento ... )”. O Salmo 110 é novamente citado para provar isso. Desta vez é
com ênfase na palavra “jurou” – “Jurou o Senhor e não Se
arrependerá: Tu és um Sacerdote eterno, segundo a ordem de Melquisedeque”.
Sendo jurado no cargo, não há possibilidade de o eterno sacerdócio de Cristo ser
revogado ou substituído por outro sacerdócio, como no caso do sacerdócio
aarônico. Isso mostra que é de uma ordem superior.
O escritor então mostra
que esse sacerdócio tendo chegado com um juramento de Deus também é a garantia de
um “tanto melhor concerto” (v. 22).
As bênçãos do novo concerto são, portanto, certas. Ele falará disso mais
detalhadamente no capítulo 8.
A PERFEIÇÃO PESSOAL E A GRANDEZA DE CRISTO COMO SUMO SACERDOTE (vs. 25-28)
O último ponto ao qual o escritor se
refere é o fato de que Cristo é perfeitamente adequado para ser nosso Sumo
Sacerdote, muito mais do que qualquer sacerdote aarônico. Por conta de Quem Ele
é, sendo tanto Divino quanto Humano, Cristo é infinitamente mais do que capaz
de nos salvar de todo perigo espiritual e do inimigo no caminho de fé. O
escritor diz: “Portanto, pode também
salvar perfeitamente [completamente
– TB] os que por Ele se chegam a Deus,
vivendo sempre para interceder por eles” (v. 25). Podemos ver aqui, pelo
contexto, que ele não está falando da salvação de nossas almas da pena pelos
nossos pecados, mas da salvação em um sentido prático. Este aspecto da salvação
flui para nós de Sua vida de intercessão ininterrupta à mão direita de Deus (Rm
8:34). Os crentes são mantidos no caminho e impedidos de falhar por intermédio
de Sua poderosa intercessão. Mas note que isso não é uma coisa automática. Deus
quer nossa participação se quisermos ser salvos dessa maneira. Devemos nos
achegar “a Deus por Ele”. Isso se
refere a expressar nossa dependência a Ele em oração. Aqui reside um problema
com muitos de nós. Embora o Senhor possa nos “salvar completamente” desses perigos, muitas vezes negligenciamos
ir a Deus em oração, e assim não obtemos do alto Sua ajuda e fracasso no
caminho é o resultado.
Quanto à capacidade de
Cristo, o escritor diz: “Porque nos
convinha tal Sumo Sacerdote”. Ele Se tornou Homem e, portanto, sabe o que é
andar aqui em um mundo que está cheio de provações e tentações. Ele está agora
à direita de Deus como nosso Sumo Sacerdote. Isso leva o escritor a falar mais
definitivamente da aptidão moral e espiritual de Cristo para interceder por nós
no alto. Ele é:
- “Santo”
– Sua ajuda será consistente com tudo o que Deus é em santidade. Ele não Se comprometerá
com o pecado, nem o desculpará no intento de nos ajudar no caminho (v. 26).
- “Inocente”
– Ele nunca pedirá algo para nós que nos prejudique espiritualmente ou de outra
forma (v. 26).
- “Imaculado”
– Ele permanece imaculado, apesar da natureza profana de algumas de nossas
tentações que Ele manipula em nosso favor (v. 26).
- “Separado dos pecadores”
– No lugar onde a ressurreição O colocou, Ele é Separado dos pecadores e não
está servindo como um Sacerdote por eles; Ele está lá em nosso favor (v. 26).
- “Feito mais sublime do que os céus”
– Ele está em uma posição de supremo poder, acima de todos os nossos inimigos
espirituais e usa esse poder em nosso favor, de acordo com Sua perfeita
sabedoria e amor (Mt 28:18). Portanto, não há uma dificuldade em todo o
universo com a qual não seja capaz de lidar (v. 26).
- Ele
não precisa oferecer sacrifícios “por
seus próprios pecados”, como faziam os sacerdotes aarônicos quando erravam
em sua função sacerdotal porque Ele é absolutamente sem pecado (v. 27). Sendo
assim, Ele nunca cometerá um erro no que nos pede.
- Ele não tinha “fraquezas” (AIBB) como os sacerdotes aarônicos, mas permanece na presença de Deus para interceder por nós com “a palavra do juramento” como o “Filho”, e assim é “perfeito para sempre” como nosso grande Sumo Sacerdote (v. 28).
Essas coisas mostram
quão perfeitamente apto o Senhor é para ser nosso Sumo Sacerdote e para nos
ministrar “misericórdia” e “graça, a fim de sermos ajudados em tempo
oportuno” (cap. 4:16).
Assim, tendo
estabelecido que o sacerdócio de Cristo é segundo a ordem do sacerdócio de
Melquisedeque, o escritor procedeu a mostrar pelas Escrituras que o sacerdócio
aarônico em vários pontos é inferior ao de Melquisedeque. Isso nos deixa então
a conclusão óbvia de que o sacerdócio de Cristo é, portanto, superior ao de
Aarão.