V.
1 – Depois de uma longa digressão desde o versículo 1:2b até o final do
capítulo 1 (em que o escritor fala das glórias de Cristo), ele nos traz de
volta à Palavra falada pelo Filho. Ele diz: “Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas
que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas”.
O grande perigo para alguns entre os hebreus era o de se desviar do terreno Cristão
que tinham tomado e voltar ao judaísmo. Tal coisa seria apostasia. O escritor
usa o pronome “nos” aqui, não para indicar
crentes no Senhor Jesus Cristo, mas aqueles que eram de origem judaica, aos
quais o escritor inclui a si mesmo. (Isso é característico das epístolas Cristãs
hebraicas – Hebreus, Tiago, 1 e 2 Pedro, embora possa haver algumas exceções).
V.
2 – O escritor faz uma comparação entre “a
palavra falada pelos anjos” na concessão do concerto da lei (At 7:53) e a
palavra que foi “falada pelo Senhor”
quando Ele veio aos judeus em Seu primeiro advento. Ele lhes pede que
considerem que se a palavra dos anjos na Lei contra os ofensores era “firme (não poderia ser revogada e
anulada), e toda transgressão e
desobediência recebeu a justa retribuição”, quanto muito mais severo seria
o juízo se eles negligenciassem a palavra falada pelo Senhor que é uma Pessoa
infinitamente maior! Como eles poderiam escapar do juízo certo que cairia sobre
eles se eles voltassem atrás? Assim, a palavra de Cristo é superior à dos
anjos.
Ele
diz: “como escaparemos nós, se não
atentarmos para uma tão grande salvação”. A “grande salvação” que o Senhor anunciou em Seu ministério terreno não é a salvação eterna da alma anunciada
no evangelho da graça de Deus (At 20:24), como comumente pensado, mas uma
libertação temporal para a nação, dos
seus inimigos. Naquela época, os judeus estavam cativos dos romanos que os
governavam em sua própria terra, e eles precisavam muito desse tipo de
libertação. O Senhor Jesus foi enviado por Deus como “um Chifre de Salvação” (Lc
1:68-71 – original grego) de Deus para a libertação da nação. Ele veio “apregoar liberdade aos cativos” que
estavam sob o jugo romano (Lc 4:18-19). Essa foi uma das bênçãos externas
prometidas à nação no evangelho do reino que o Senhor anunciou (Mt 4:23; Mc
1:14). Após Sua entrada em Jerusalém, o povo gritou “Hosana” (que significa “Salve
agora!”) e esperou grandes coisas d’Ele nesse sentido (Mt 21:15). Mas os
líderes conduziram o povo a rejeitá-Lo, e essa grande salvação de seus inimigos
foi, portanto, adiada. Se os judeus tivessem recebido a Cristo, Ele teria
salvado a nação libertando-os de sua escravidão. A nação teria evitado sua
destruição em 70 d.C. e teria sido abençoada por Deus como prometido nos
escritos de seus profetas.
O
escritor também diz que a promessa desta salvação temporal de seus inimigos foi
“confirmada” ao povo pelos apóstolos
(Hb 2:3; At 3:19-21) também pelo “testemunho”
do próprio Deus nos milagres que acompanharam a pregação desse evangelho (Hb
2:4; At 3:6-10, 5:15-16, etc.) Assim, a nação provou “a boa Palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro” (Hb 6:5 –
ARA).
Esta
“grande salvação (nacional)” em Hebreus 2:3 não poderia ser a
salvação espiritual das “almas”
anunciadas no evangelho da graça de Deus hoje (1 Pe 1:9; At 16:31, etc.),
porque diz que foi “primeiro” falado
pelo Senhor quando esteve aqui na Terra. O evangelho que o Senhor pregou era o
evangelho do reino (Mt 4:23; Mc 1:14). Aquela mensagem O apresentou como o Rei
e Messias de Israel que viria à nação em seu tempo de necessidade e os salvaria
de seus inimigos, e estabeleceria Seu reino em poder e glória. Foi só depois que os judeus formalmente
rejeitaram a Cristo, e enviaram um homem (Estêvão) a Deus com a mensagem: “Não queremos que Este reine sobre nós”
(Lc 19:14; At 7:54-60), que o evangelho da graça de Deus foi anunciado ao mundo
(At 11:19-21, 13:46-48, 15:14, 20:24, 28:28).
Sobre
este ponto em Hebreus 2:3, H. Smith disse: “Na sua interpretação estrita, a
salvação da qual o escritor fala não
é o evangelho da graça de Deus como apresentado hoje, nem contempla a
indiferença de um pecador em negligenciar o evangelho. Ainda assim, uma
aplicação neste sentido certamente pode ser feita, pois deve ser verdade que
não pode haver escapatória para aquele que finalmente negligencia o evangelho.
Aqui é a salvação que foi pregada pelo Senhor aos judeus, pela qual um caminho
de escape do juízo, prestes a cair sobre a nação, foi aberto para o remanescente
crente. Esta salvação foi posteriormente pregada por Pedro e os outros
apóstolos nos primeiros capítulos de Atos, quando eles disseram: “Salvai-vos desta geração perversa”. Este
testemunho foi dado por Deus com “maravilhas,
prodígios e sinais”. O Evangelho do Reino será novamente pregado após a
Igreja ser completada” (The Epistle to
the Hebrews, pág. 12-13).
J.
N. Darby também disse: “É a pregação de uma grande salvação feita pelo próprio
Senhor quando esteve na Terra; não o evangelho pregado e a Igreja reunida após
a morte de Cristo. Este testemunho, portanto, prossegue pelo Milênio sem falar da
Igreja, um fato a ser notado não apenas nesses versículos, mas em toda a
epístola” (Collected Writings, vol.
28, pág. 4).