1) CRISTO VEIO PARA JUSTIFICAR DEUS COM RELAÇÃO À QUEDA DO HOMEM E
COMEÇAR UMA NOVA RAÇA DE HOMENS POR MEIO DA QUAL O PROPÓSITO DE DEUS SERÁ CUMPRIDO
Vs. 5-13 – O escritor
explica que Deus propôs que “o mundo
vindouro” (o Milênio) estivesse sob o domínio do homem. Isso é algo que
nunca foi dito sobre os anjos. Deus fez anjos para servir, mas não para
governar. Assim, o escritor diz: “Porque
não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos” (v. 5). A
única criatura que Ele fez para governar foi o homem. No entanto, sua queda
tornou-o absolutamente incapaz de governar em qualquer sentido adequado (Ec
7:29). Em seu estado caído, não está apto para o propósito para o qual foi
criado. Se Deus usasse o homem em seu estado caído para governar o mundo vindouro,
o homem apenas o estragaria como fez com o mundo presente. Assim, a entrada do
pecado aparentemente frustrou o propósito de Deus para o homem.
O escritor da epístola,
em seguida, cita o Salmo 8 para mostrar que Deus enfrentaria este dilema por
ter Cristo vindo e assumido a humanidade para a glória de Deus. Ele Se tornaria
um Homem e assumiria as responsabilidades que o primeiro homem se sujeitou,
indo à morte e fazendo expiação pelo pecado. Ao ressuscitar dos mortos, Cristo Se
tornaria a Cabeça da raça da nova criação de homens que seria perfeitamente
capaz de governar no mundo por vir, como Deus propôs. Esta é a primeira grande razão pela qual Cristo Se
tornou um Homem.
V. 6 – O Salmo 8:4 diz:
“que é o homem [em hebraico: Enosh], para que te lembres
dele?” (AIBB). O salmista se maravilha com a graça de Deus que se ocupa com
os homens. A palavra aqui para “homem”
no hebraico é “Enosh”. Ela indica o
estado fraco e frágil do homem – implicando sua condição caída e degenerada. Estamos
realmente agradecidos por Deus ter Se atentado à nossa raça caída. “Se Deus pensasse apenas em Si mesmo e para
Si recolhesse o Seu espírito e o Seu sopro, toda a carne juntamente expiraria,
e o homem voltaria para o pó” (Jó 34:14-15 – ARA). Deus teria sido justo ao
fazer isso, mas nós, como raça, estaríamos perdidos para sempre. O escritor
continua sua citação do Salmo 8, dizendo: “... E o filho do homem [em hebraico: adam], para que o visites?”. Isto se refere à visita de Deus à raça
humana em misericórdia na Pessoa do Filho (Lc 1:78). Em vez de pensar somente
em Si mesmo e nos deixar perecer em nossos pecados, “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito”
para que não perecêssemos (Jo 3:16). Mas aqui, notemos, o salmista usa uma
palavra diferente para “homem” no
hebraico a partir do que ele havia usado anteriormente. Aqui é “Adão”, que não carrega as conotações de
“Enosh”. Isso significa que quando
Cristo visitasse a raça humana, ao Se tornar um Homem, não estaria no
degenerado estado “Enosh”. Assim, em
Sua encarnação, Ele participaria da humanidade (espírito, alma e corpo), mas
não em humanidade caída. Vemos disso o quão cuidadosamente a Palavra de Deus
protege a humanidade sem pecado de Cristo. O Senhor Jesus não tinha uma
natureza caída pecaminosa, como o resto dos descendentes de Adão; Ele tinha uma
natureza humana santa.
Vs. 7-8a – Ao Se tornar
um Homem, Cristo condescendeu a tomar um lugar “um pouco menor do que os [inferior
aos – JND] anjos” porque os
homens são uma ordem de seres na criação de Deus que são inferiores aos anjos.
No capítulo 1:4, o escritor disse que Cristo é “mais excelente do que os anjos”. Essas declarações não se contradizem;
um enfatiza Sua divindade e a outra Sua humanidade. Assim, ao descer para Se
juntar à humanidade, o Senhor passou pelos anjos e tomou sobre Si a descendência
de Abraão (v. 16). Sendo um Homem, aceitou limitações da criatura (embora, Ele
próprio, não fosse uma criatura) e caminhou por este mundo em humilde
dependência e obediência a Seu Pai. O Salmo não fala de Sua morte, mas passa
por ela para nos falar de Sua posição atual como elevado ao alto – “de glória e de honra O coroaste”. O
Salmo também diz: “e O constituíste
sobre as obras de Tuas mãos. Todas as coisas Lhe sujeitaste debaixo dos
pés”. Sendo que este é um salmo referente ao Milênio, isto ainda não
aconteceu. Refere-se à intenção de Deus de que o homem governe o mundo vindouro
na Pessoa de Cristo. Naquele dia, Ele terá publicamente domínio sobre todos
como um Homem glorificado.
V. 8b – O escritor
interrompe citando o Salmo 8 neste ponto porque esse salmo vê o domínio de
Cristo como sendo limitado a “todas as
coisas” na Terra e no mar. O Velho Testamento não vai além do lado terreno
do reinado do Messias. No entanto, o Novo Testamento revela que o domínio de
Cristo será sobre uma gama muito maior de coisas, incluindo coisas no céu (Ef
1:10; Fp 2:10). Portanto, sob inspiração, o escritor acrescenta: “nada deixou que Lhe não esteja sujeito”.
Isso vai além do alcance do Salmo 8 e abrange todo o universo. Uma vez que isso
ainda está no futuro, ele afirma que a manifestação pública disso não é vista
atualmente no mundo – “Mas, agora, ainda
não vemos que todas as coisas Lhe estejam sujeitas”.
V. 9 – Embora ainda não
vejamos Cristo reinar publicamente sobre o universo, os olhos de fé O veem “coroado de glória e de honra” à destra
de Deus. Este é o lugar onde Ele está agora como um Homem glorificado. O escritor
continua a nos dizer por que Cristo foi feito um pouco menor que os anjos – foi
“por causa da paixão da morte”. Isso
também é algo que o Salmo 8 não menciona. Isso mostra que, ao entrar no lugar
do homem e Se tornar um Homem, Cristo assumiu as responsabilidades que vieram
com isso. Por isso, tornar-Se Homem era provar “a morte por todas as coisas” (JND). Esse é o aspecto mais amplo da
obra de Cristo na cruz. É isso que cuidou de toda a eclosão do pecado e do
estrago que ele causou na criação. Isso nos mostra o quão longe os efeitos do
pecado têm ido; não só tocou a raça de Adão, mas também toda a criação inferior
sob ele. Por isso, Cristo morreu não apenas pelos homens, mas também pelo que o
pecado causou na criação.
Se Cristo como um Homem
deve reinar sobre a herança – que é toda coisa criada no céu e na Terra – Ele
deve obter o direito a ela por Sua aquisição na cruz. É por isso que diz que
Cristo provou a morte por “todas as
coisas” (JND). Ele comprou “o campo”
(“o campo é o mundo” inteiro – [o cosmo, no grego]); isso inclui tanto homens quanto coisas (Mt 13:38, 44). Consequentemente, Ele pagou o preço pelo
direito de possessão do mundo inteiro e tudo que está no mundo.
V. 10 – Se é para Deus,
“para Quem são todas as coisas e
mediante Quem tudo existe”, ter o Seu propósito cumprido no mundo vindouro,
de ter a criação sob o governo do homem, terá que ser por meio de uma nova raça
de homens. Mas, para que esta nova raça exista, primeiro deve ter uma Cabeça.
Colossenses 1:18 afirma que quando o Senhor Jesus Cristo ressuscitou “de entre os mortos” (ARA), Ele Se
tornou o “princípio” (e, portanto,
Cabeça) desta raça da nova criação (Ap 3:14). O escritor de Hebreus refere-se a
isto, afirmando que se Deus fosse trazer “muitos
filhos” (uma nova raça de homens) para “glória”,
o “Capitão [Autor]” (o Senhor Jesus
Cristo) teria primeiro de ser feito “perfeito”.
Isso se refere à ressurreição e glorificação de Cristo (Lc 13:32; Hb 5:9). Isso
mostra que tinha que haver uma Cabeça glorificada antes que pudesse haver uma raça
glorificada debaixo d’Ele. Todos os que creram no evangelho e, assim, estão “em Cristo” fazem parte dessa raça da “nova criação” (2 Co 5:17; Gl 6:15; Ef
2:10). Enquanto Cristo está presentemente glorificado, a nova raça sob Ele
ainda não foi levada à glória – isto é, ser levada a uma condição glorificada.
Essa mudança aguarda o momento do Arrebatamento (Fp 3:21; 1 Ts 4:15-17).
O que é surpreendente
sobre isso é que quando Cristo ressuscitou dos mortos e subiu aos céus como um Homem,
Ele passou pelos anjos pela segunda vez, e levou a humanidade para um lugar
muito acima dos anjos! É-nos dito que quando Ele entrou nos céus como um Homem,
Ele Se assentou em um lugar “acima [muito acima – TB] de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que
se nomeia, não só neste século, mas também no vindouro” (Ef 1:21).
(Principado e poder etc. são seres angélicos.) Assim, a Cabeça desta nova raça
está em um lugar acima dos anjos, e como os crentes estão “em Cristo” (2 Co 5:17), estão naquele lugar também! Isto significa
que há agora toda uma raça de homens sob Cristo que é superior aos anjos! A
primeira ordem do homem foi feita um pouco abaixo dos anjos, mas essa nova raça
de homens sob Cristo não é um pouco maior que os anjos – é “muito acima” (TB) dos anjos! Os homens nesta nova raça são agora a
mais alta ordem das criaturas de Deus. Somos dessa nova ordem de humanidade
agora. Atualmente, não parece ser assim porque ainda estamos em nossos corpos
de humilhação (Fp 3:21), que são parte da velha ordem de humanidade, mas “assim como trouxemos a imagem do terreno,
assim traremos também a imagem do celestial” (1 Co 15:49; 1 Jo 3:2). Isto
é, há um dia chegando quando seremos glorificados como Cristo (Rm 8:17, 30) e
assim seremos adequados para reinar com Ele no mundo vindouro.
Nota: era a vontade de
Deus que Cristo fosse aperfeiçoado “pelos
sofrimentos” (TB). Isso se refere ao que Ele passou quando andou neste
mundo. Estes não foram os sofrimentos expiatórios do Senhor, mas os sofrimentos
que O prepararam para ser nosso Sumo Sacerdote. Ele agora é capaz de Se
compadecer de Seu povo que está passando por sofrimento e provas no caminho de
fé porque Ele sentiu o mesmo (v. 18).
V. 11 – O escritor
continua mostrando quão perfeitamente aqueles da raça da nova criação são
adequados a Cristo. Ele diz: “Porque,
assim O que santifica (Cristo) como
os que são santificados (os Cristãos),
são todos de um”. Isto se refere àqueles da nova raça sendo da mesma
natureza e espécie como o próprio Cristo. “Todos
de um” não está se referindo à unidade do corpo de Cristo, nem está falando
da unidade na família de Deus, mas da nossa singularidade
de espécie com Cristo na nova criação. Assim, Cristo e Seus irmãos são de
uma mesma posição e espécie.
Um exemplo da singularidade
de espécie é quando a esposa de Adão foi trazida a ele. Ele tinha visto todos
os vários tipos de criaturas passarem diante de si; cada uma era “conforme a sua espécie” (Gn 1:21,
24-25). Não havia, no entanto, nenhuma encontrada entre elas que fosse da espécie
de Adão, e assim, todas essas eram inadequadas para ele. Mas quando Deus levou
a mulher a Adão, ele viu alguém que era da sua própria espécie e disse: “Esta é agora osso dos meus ossos e carne
da minha carne” (Gn 2:23). Longe de ser o pensamento, mas se Adão tivesse
sido forçado a tomar uma outra criatura para ser sua esposa, teria se
envergonhado, mas quando Deus lhe trouxe a mulher, que era de sua espécie, ele
ficou muito feliz. Da mesma forma, somos “um”
em espécie com Cristo nesta nova ordem de humanidade e, portanto, inteiramente
adequados a Ele. Por isso, Ele “não Se
envergonha de lhes chamar irmãos”.
É importante notar, no
entanto, que, embora Ele não tenha vergonha de nos chamar de “irmãos”, a Palavra de Deus nunca diz
que devemos chamá-Lo de nosso “Irmão mais velho” ou outros termos de
familiaridade. Lembremo-nos de que Ele é “o
Primogênito entre muitos irmãos” (Rm. 8:29). Como tal, Ele tem um lugar de
preeminência entre os outros na raça e há uma glória especial que pertence
somente a Ele – que é o que o “Primogênito”
indica. É uma “glória” que veremos,
mas não é compartilhada conosco (Jo
17:24). As palavras do Senhor para Maria indicam este lugar especial que
pertence a Ele. Ele disse: “Subo para Meu
Pai e vosso Pai; Meu Deus e vosso Deus” (Jo 20:17). Ele não disse “nosso” Pai e “nosso” Deus, mas menciona a Si mesmo em relação a Seu Pai e Seu
Deus separadamente dos crentes, mostrando que Ele tem um lugar de distinção na
raça da nova criação. Assim sendo, devemos ter cuidado para não falar com Ele ou sobre Ele em termos de familiaridade.
Vs. 12-13 – Três passagens
das Escrituras do Velho Testamento são citadas para mostrar a plena
identificação de Cristo com Seus irmãos neste novo relacionamento. Enquanto
Cristo deve ser distinguido como o Proeminente na nova criação, estas citações
servem para provar quão completamente o Santificador e os santificados estão
unidos.
A primeira citação do Velho
Testamento é do Salmo 22:22: “declararei
o Teu nome a Meus irmãos; louvar-Te-ei no meio da congregação”.
A palavra “congregação” neste
versículo não se refere à Igreja como em outras partes do Novo Testamento (Mt
16:18, etc.) Se estivesse falando da Igreja, então a Igreja estaria no Velho
Testamento – mas isso contradiz Romanos 16:25; Efésios 3:3-5; Colossenses 1:24-26.
A palavra “assembleia” no Salmo 22
está se referindo a toda companhia celestial de santos dos tempos do Velho e do
Novo Testamento, que serão ressuscitados e glorificados em um dia vindouro. J.
N. Darby comentou: “A assembleia não é encontrada na Epístola aos Hebreus,
salvo em uma alusão a todos os incluídos na glória milenar no capítulo 12” (Synopsis of the Books of the Bible, on
Hebrews 1-2). Na nota de rodapé de sua tradução em Hebreus 9:11 diz algo
semelhante: “A Epístola aos Hebreus, embora endereçada aos Cristãos sobre os
mais preciosos assuntos, não entra na própria posição da Igreja: uma vez se
refere à Igreja como estando no céu no capítulo 12” (versão de notas
completas). Veja Collected Writings of J.
N. Darby, vol. 10, pág. 245.
O ponto da citação não é ensinar que a Igreja está no Velho
Testamento, mas mostrar que depois que a redenção fosse completada, o tema do
louvor de Cristo e dos redimidos seria um
em entendimento quanto ao que Ele realizou em Sua morte. J. N. Darby disse: “O versículo
12 é uma citação do Salmo 22:22, onde Jesus em ressurreição toma o lugar de
Líder do louvor de Seus irmãos. Nossos hinos de louvor devem, portanto, estar
de acordo com os d’Ele. Ele passou pela morte por nós; e se nossa adoração
expressa incerteza e dúvida em vez de gozo e segurança no sentido de redenção consumada,
não pode haver harmonia, mas discórdia com a mente do céu” (Collected Writings, vol. 27, pág. 343).
O Senhor conduz o louvor dos remidos hoje nestes tempos Cristãos, quando os
santos estão reunidos porque Ele e os remidos são um em seu tema de louvor, se
estiverem em comunhão com Ele.
A segunda citação é de
Isaías 8:17 (a versão Septuaginta): “n’Ele
ponho a Minha confiança”. Tendo Se tornado um Homem, Cristo aceitou as
limitações da criatura (embora não sendo Ele mesmo uma criatura) e assim vive
em expressa dependência de Deus. Uma vez que Ele permanecerá um Homem para a
eternidade, Ele sempre terá um lugar de sujeição ao Pai junto com Seus irmãos.
A terceira citação é de
Isaías 8:18. “Eis-Me aqui a Mim, e aos
filhos que Deus Me deu”. Novamente, isso é citado em prol do princípio
envolvido; não ensina que somos filhos de Cristo. Somos “filhos de Deus” (Jo 1:12; Rm 8:16; 1 Jo 3:1) e, como tais, somos “co-herdeiros com Cristo” (Rm 8:17 –
ARA). Esta citação mostra que o Santificador e os santificados são um em
natureza, tendo a mesma vida.
Assim, somos um com Ele
em nosso louvor a Deus, em nossa dependência de Deus e em termos a mesma vida e
natureza.
Em resumo, esta
passagem (vs. 5-13) mostra que Deus foi plenamente justificado com relação à
queda do homem, e que Seu propósito concernente ao domínio do homem no mundo vindouro
será realizado por meio de uma nova raça de homens sob Cristo. Tudo isso é algo
que nenhum anjo poderia cumprir e, portanto, a superioridade de Cristo sobre
eles é aqui distinguida.