Neste capítulo 5, o
escritor retoma a aptidão de Cristo para ser nosso Sumo Sacerdote. Ele mostra
que as várias qualificações necessárias para alguém ser um sacerdote foram
plenamente satisfeitas em Cristo. De fato, devido à grandeza de Sua Pessoa, Ele
excede em muito todas as exigências! O escritor aborda três coisas principais relacionadas com a aptidão de Cristo para
este ofício (ver The Collected Writings
of J.N. Darby, vol. 7, pág. 259).
A primeira qualificação é que um sacerdote tinha de ser “tomado dentre os homens” (v. 1). Isto
é, devia ser um homem que viveu e caminhou neste mundo e, portanto, sabe por
experiência o que é passar por sofrimentos, provações e tribulações comuns aos
homens. Isso é necessário porque o trabalho que um sumo sacerdote é chamado a
fazer, ao se compadecer das pessoas e ajudá-las em suas circunstâncias de vida,
requer que seja capaz de se relacionar com elas por ter sentido coisas
semelhantes. Assim, o escritor diz: “possa
compadecer-se ternamente dos ignorantes e errados, pois também ele mesmo está
rodeado de fraqueza” (v. 2).
A segunda qualificação é que ele tinha que ser “constituído” ou nomeado para este trabalho (v. 1). Assim, o ofício
do sacerdócio não é algo que uma pessoa escolhe como vocação na vida. Ele tem de
ser selecionado para esse serviço por ninguém menos que o próprio Deus. O
escritor afirma: “Ninguém toma para si
esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Aarão” (v. 4). Assim, uma
pessoa tem que ser “chamada por Deus”
para tal trabalho. A história de Israel registra que aqueles que aspiraram a
esse ofício, mas não foram ordenados por Deus, foram julgados implacavelmente
por sua presunção (Nm 16).
A terceira qualificação é que o sacerdote tinha que ter “dons e sacrifícios pelos pecados” para
oferecer a Deus (Hb 5:1, 8:3, 9:9). Esta é uma referência aos vários tipos de
ofertas mencionadas em Levítico 1-6. Essas ofertas estão divididas em duas categorias:
- “Dons”
são ofertas queimadas, ofertas de manjares e ofertas pacíficas (Lv 1-3). Estas
são ofertas voluntárias que tipificam a adoração. A palavra hebraica é “Corbã”, que significa dar um presente
(ver J. N. Darby, nota de rodapé sobre Levítico 3:1).
- “Sacrifícios pelo pecado” são ofertas pelo pecado e ofertas pela culpa (Lv 4:1-6:7). Estas foram ofertas obrigatórias que tipificam o que é necessário para a restauração de uma alma à comunhão com Deus.
Um contraste marcante
que o escritor logo aponta entre essas coisas é que os sacerdotes aarônicos
tinham que fazer uma oferta “pelos
pecados” de si mesmos (v. 3; Lv 16:11). Isso, certamente, é algo que Cristo
não precisou, pois n’Ele não há pecado.
Tendo declarado essas
três qualificações para o sacerdócio, o escritor mostra que Cristo satisfez
completamente esse critério e, portanto, é mais do que qualificado para ser
nosso grande Sumo Sacerdote. Por isso, o escritor diz: “Assim, também Cristo não Se glorificou a Si mesmo, para Se fazer Sumo Sacerdote”.
V. 5 – Em primeiro lugar, quanto a ser Homem, Deus
disse: “Tu és Meu Filho, hoje Te gerei”.
Esta é uma citação do Salmo 2, referente à encarnação de Cristo. Confirma que
Ele Se tornou um Homem em todos os sentidos – espírito, alma e corpo. Isso
significa que Ele é plenamente capaz de Se compadecer de nós porque sentiu as
próprias coisas que sentimos. Cristo, no entanto, não estava “rodeado de fraqueza” como os
sacerdotes aarônicos. Como “Filho”, Ele
está no ofício de sumo sacerdote na competência de Sua própria Pessoa.
V. 6 – Em segundo lugar, quanto à Sua designação
para o ofício do sacerdócio, o escritor cita o Salmo 110 para confirmar isso.
Deus Lhe disse: “Tu és sacerdote
eternamente, segundo a ordem de Melquisedeque” (v. 6). Esta declaração
mostra que Cristo foi designado para esse ofício pelo próprio Deus. Ele não
tomou essa honra para Si mesmo como algo que Ele tenha escolhido; Deus O colocou
naquele ofício quando O ressuscitou de entre os mortos. Ao contrário dos
sacerdotes da ordem aarônica que morreram e o ofício foi passado para outra
pessoa, Cristo é um sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque “eternamente”.
Vs. 7-8 – Em terceiro lugar, a respeito de Cristo ter
“alguma coisa que oferecer” (cap.
8:3), o escritor responde a esta afirmação, “O qual, nos dias da Sua carne, oferecendo, com grande clamor e
lágrimas, orações e súplicas ao que O podia livrar da morte [para fora da morte – JND]”. Esta é uma referência às Suas
orações no Getsêmani. Ele não pediu para ser salvo de entrar na morte, pois essa era a razão pela qual Ele veio, sendo o Sacrifício
supremo pelo pecado. Suas orações tinham a ver com ser levantado “para fora da morte”, que é
ressurreição. O escritor acrescenta em um parêntese que Ele “foi ouvido naquilo que temia [por causa de Sua piedade – JND]”. Deus respondeu Suas orações e O
ressuscitou de entre os mortos.
Ao Se tornar um Homem,
havia coisas que o Senhor experimentou que nunca tinha experimentado antes. Uma
dessas coisas era obediência. Como Filho na eternidade passada, Ele era o
Comandante de tudo no universo. Ele não sabia o que era ser obediente, nunca
tendo estado em posição de obedecer antes. Em Sua encarnação, Ele levou a Humanidade
à união com Sua Pessoa, e ao fazê-lo, Ele aceitou a posição subordinada de ser
um Homem – que implicava viver em obediência a Deus. Isto era uma coisa nova
para Ele, e assim Ele aprendeu por experiência o que era ser obediente. O
escritor diz: “Ainda que era Filho,
aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu”. A passagem nos ensina que,
apesar de Ele ser o Filho, ao Se tornar um Homem, Ele teve que aprender
obediência como qualquer outro homem. Isso não significa que Ele passou por um
processo de tentativa e erro em Sua experiência de aprendizado, mas sim que
aprendeu por experiência o que era obedecer. Ao contrário dos outros homens,
Sua obediência foi perfeita; não houve tentativa e erro nela.
Vs. 9-10 – Ele não
apenas ofereceu “orações e súplicas”
que foram respondidas na ressurreição, mas Ele também fez o supremo Sacrifício
pelo pecado e “Se ofereceu a Si mesmo
imaculado a Deus” (capítulo 9:14), por meio do qual Ele “uma vez Se manifestou, para aniquilar o
pecado pelo sacrifício de Si mesmo” (cap. 9:26). E “tendo sido aperfeiçoado” (TB) (ressuscitado dentre os mortos), “tornou-Se Autor da salvação eterna” (TB)
para todos os que “obedecem” a Seu
chamado pelo evangelho. Novamente, isso é algo que nenhum sumo sacerdote aarônico
jamais poderia fazer.
Essas coisas mostram
que Cristo cumpriu todos os requisitos para que Ele seja nosso grande Sumo
Sacerdote. E assim, Ele foi “chamado por
Deus” para aquele ofício “segundo a
ordem de Melquisedeque”. O escritor tem muito a dizer sobre o sacerdócio de
Melquisedeque de Cristo, mas antes de fazê-lo, ele sente que deve discursar
para dar outra solene advertência contra a apostasia.