V. 1 – A exortação
neste capítulo é “corramos, com
paciência [perseverança – AIBB], a carreira que nos está proposta”.
Assim, o caminho de fé é visto como uma “carreira
[corrida – JND]” que devemos “correr com perseverança”. Correr implica energia espiritual e perseverança
implica resistência. Estes são dois elementos necessários para uma corrida bem-sucedida.
Se somos crentes no Senhor Jesus Cristo, estamos na corrida. No entanto, todos
os que estão na corrida podem não estar correndo, devido à falta de energia e
perseverança. Assim, todo Cristão precisa entender desde o início que o caminho
de fé não é uma corrida de arrancada, mas uma corrida de longa distância que se
prolonga pela duração de nossas vidas.
O escritor começa
lembrando os crentes hebreus que eles estavam cercados por “uma grande nuvem de testemunhas”. Esses são os santos do Velho Testamento
mencionados no capítulo 11. Eles não são testemunhas no sentido de
espectadores. Ou seja, não estão no céu olhando para nós, observando o que
estamos fazendo. Os santos que morreram e foram para o céu ainda não foram
glorificados. Estão lá em suas almas e espíritos, mas não em seus corpos, os quais aguardam a ressurreição. Por isso, não
veem o que está acontecendo na Terra (Jó 14:21; Ec 9:5). Os santos do Velho
Testamento são testemunhas no sentido de que registram o fato de que uma pessoa
pode viver com sucesso por fé na Terra com a aprovação de Deus. Estas
testemunhas estão lá para nos encorajar pelo seu exemplo. Eles andaram no
caminho de fé antes de nós e alcançaram o objetivo. Enfrentaram todos os tipos
de oposição no caminho e por fé superaram esses obstáculos. Assim, elas são a
prova de que o caminho de fé pode ser conduzido para a glória de Deus.
Como existem muitos
obstáculos para a corrida, nos é dito para que “deixemos” tudo o que impede nosso progresso. Os dois principais
obstáculos que o escritor menciona são: embaraços
(impedimentos – TB) e pecados. Estes
devem ser eliminados se quisermos correr a corrida com sucesso. Da mesma forma,
quando um corredor se prepara para uma corrida a pé, ele se desfaz de tudo que
é supérfluo que irá impedi-lo. Precisamos fazer o mesmo nesta corrida
espiritual.
Um “embaraço” é algo que não é moralmente errado em si mesmo, mas, ainda
assim, nos atrasa na corrida. O embaraço específico que o escritor
provavelmente tinha em mente aqui é a armadilha da religião terrena no
judaísmo. Mas poderia ser qualquer busca terrena que cativa a atenção de nosso
coração e demanda nosso tempo e energia. Mesmo que tal coisa não seja
pecaminosa, ela tende a nos distrair de Cristo em glória e trazer nossos
pensamentos e mentes para a Terra. Seja o que for, precisa ser deixado de lado.
Da mesma forma, um corredor não entra em uma corrida a pé com um pesado par de
botas e uma mochila nas costas. Não é porque essas coisas são contra as regras
da corrida, mas porque vão ser um embaraço a mais que irá atrapalhá-lo. Nota:
remover embaraços em nossas vidas é algo que Deus não faz; é algo que Ele quer
que nós mesmos façamos.
Podemos acrescentar que
a exortação aqui é deixar de lado “todo”
o embaraço, porque pode haver uma série de coisas em nossas vidas que nos
sobrecarregam. Nossa tendência é poupar o objeto que nos é mais querido e
deixar de lado qualquer outra coisa, e depois nos contentar em ter feito a
vontade de Deus. Mas geralmente é a coisa mais querida para nós que é o embaraço
maior em nossa vida e o que precisa ser tratado acima de tudo. Este exercício
nos desafia e revela onde realmente estão nossas afeições. Visto que nossos
corações são enganosos (Jr 17: 9), podemos sequer perceber que há um peso em
nossa vida. Da mesma forma, uma pessoa pode não sentir um peso quando está
sentada, mas quando se levanta e começa a correr fica evidente. Assim, a
maneira mais simples de descobrir um peso em nossa vida é correr – para colocar
energia em seguir a Cristo seriamente. Tem sido sugerido que existem três sinais indicadores que revelam a
presença de um embaraço em nossa vida:
- Nós
estamos inquietos sobre tal coisa e falta paz em relação a ela.
- Nós
nos encontramos defendendo tal coisa e argumentando a favor dela quando surge em
nossa conversa.
- Nós buscamos pessoas – particularmente os mais velhos, os chamados irmãos “espirituais” – esperando que nos digam que tal coisa não é errada.
O escritor também
menciona que “pecado” deve ser posto
de lado. O “pecado que tão de perto nos
rodeia”, do qual ele fala aqui, não é um certo pecado constante que podemos
ter, que com frequência nos derrota, mas o princípio do pecado (que é a
iniquidade ou fazer a nossa vontade) em ação em nossa vida. Nada nos
atrapalhará mais rapidamente do que a vontade própria; esta vontade deve ser
julgada. O grande pecado na epístola aos Hebreus é a “incredulidade”, que se não for julgado por uma pessoa que é um
mero professo, a levará à apostasia (Hb 3:12).
V. 2 – Para superar
esses obstáculos e ter a energia necessária para conduzir a corrida com
perseverança, o escritor nos aponta para Cristo em glória como o Objeto de
nossa fé. Colocar de lado os embaraços e pecados não é suficiente para garantir
o sucesso no caminho de fé. Embora tais exercícios sejam necessários, são coisas
negativas que não sustentam o crente no caminho. A fé deve ter um objeto a ser buscado.
Assim, o escritor diz: “Olhando para
Jesus”. A nota de rodapé da Tradução JND diz: “Isto significa, desviar o
olhar de outras coisas e fixar os olhos exclusivamente em Um”. Olhando para
Cristo onde Ele está no alto preenche o coração com coisas que pertencem àquela
esfera. Isto, por sua vez, age como um poder positivo em nossas vidas e nos estimula
a buscar essas coisas, ao invés do que é meramente terrestre. Assim, enquanto
os santos do Velho Testamento são um encorajamento para nós no caminho de fé,
eles não são o nosso objetivo. Nota: ele não diz: “Olhe para as testemunhas”.
Nós as temos como exemplos atrás de nós, mas Cristo é o Objeto que Deus coloca
diante de nós para Quem devemos olhar. Nisto, temos uma vantagem distinta sobre
os santos do Velho Testamento. Eles não tinham Cristo no alto como um objeto,
como nós temos. Ele ainda não havia vindo em Seus dias e, portanto, não estava assentado
à direita de Deus para que olhassem e O buscassem em fé.
Quanto a Cristo ser
nosso Exemplo, Ele andou no caminho de fé perfeitamente, desde o início até o
fim de Sua vida, e assim é verdadeiramente “o
Autor e Consumador da fé”. O que O motivou no caminho foi “gozo que Lhe estava proposto”. Seu gozo
era duplo: em primeiro lugar, era Seu
gozo fazer a vontade de Deus para a glória de Deus (Sl 40:8; Jo 4:34). Isso Ele
fez com perfeição. Como resultado, e como uma marca de Sua aprovação, Deus O
ressuscitou dentre os mortos e O colocou à Sua própria mão direita (Sl 110:1;
Fp 2:9-11). Em segundo lugar, o
Senhor olhou para o momento em que Ele estaria unido à Igreja (Seu corpo e noiva),
pela qual Ele Se entregou na morte (Ef 5:25-27), e isso também encheu Seu
coração de gozo. Essa perspectiva O sustentou no caminho e permitiu que Ele
suportasse “a cruz” e desprezasse a “afronta”. É improvável que o escritor
estivesse se referindo à obra de Cristo na cruz para fazer expiação, porque O
coloca diante de nós como nosso Exemplo, e certamente não podemos segui-Lo ao
fazer expiação. Sua morte na cruz aqui está mais em conexão com Ele sendo o
justo Mártir. Nisso Ele é o Exemplo de perseverança. Ele perseverou em
obediência a Deus apesar de toda oposição e completou Seu percurso e agora “assentou-Se à destra do trono de Deus”.
Vs. 3-4 – O escritor
diz: “Considerai, pois, aqu’Ele que
suportou tais contradições dos pecadores contra Si mesmo, para que não
enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos. Ainda não resististes até ao sangue,
combatendo contra o pecado”. Ele queria que contemplássemos as
circunstâncias extremamente difíceis que o Senhor suportou nas mãos dos
pecadores. Ele foi ao limite em fazer a vontade de Deus. Ele “resistiu até ao sangue”. Isto é, Se recusou
a abandonar a vontade de Deus, e isso Lhe custou a vida! Ele preferiria morrer
a desobedecer! Que Modelo é para nós!
Os crentes hebreus
deviam “considerar” aqu’Ele que
tanto suportou, porque ainda não tinham sido chamados para ir tão longe. Da
mesma forma, seguindo o exemplo do Senhor, devemos viver e servir a Deus com o
pensamento de agradá-Lo (Hb 13:21) e, um dia, ouvir o Senhor dizer: “Muito bem, servo bom e fiel ... entra no gozo do teu Senhor” (Mt
25:21). Precisamos ter esse tipo de compromisso com a vontade de Deus, mesmo
que isso signifique que nossa vida termine em martírio.